quinta-feira, 13 de novembro de 2008
A TERATROGENINA NA FORMAÇÃO DENTÁRIA
“Na África, uma criança , a cada 15 segundos, morre de sede”.
Quando o “Primeiro Fórum Sobre a Seca na África” foi realizado, em Zimbalê, Quênia, em janeiro de 1997, a frase acima abriu o evento e resumiu o caráter emergencial da reunião. Organizado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento da África (PNDA), o encontro contou com especialistas em climatologia do continente africano e cientistas do Setor de Administração Nacional Oceanográfica e Atmosférica dos Estados Unidos. Os resultados do encontro previram que mudanças climáticas vão transformar as regiões do sul da África, e que a falta de água no continente impossibilitará a vida nos países mais pobres do planeta. O resultado do encontro acaba de ser publicado na revista científica bimestral Procedings of the National Academy of Sciences, publicada na edição de outubro de 2008. A pesquisa, liderada pelos cientistas Benedict Tembo, do Zâmbia e pelo americano John Isaac Marty, divulga os primeiros resultados obtidos em laboratório. Através da utilização dos métodos do efeito teratrogênico in vitro ,em fetos de animais experimentais, com a utilização de germes dentais de molares inferiores, constatou-se significativo acréscimo de dentes nas arcadas inferior e superior dos fetos de camundongos em formação, entre 14 e 17 dias de vida intra-uterina. No período de dez anos, testes laboratoriais indicaram que a droga teratrogenina associada ao genol-cálcio, atravessaram a placenta e favoreceram a formação dentária do feto, que nasceu com elevação nos níveis minerais dos dentes. O estudo indica que no prazo de 20 anos será possível a viabilização do nascimento de crianças das áreas mais pobres do planeta nascerem com dentes. Segundo o chefe da Equipe de Coordenação da Seca (ESCA), sediada na Namíbia, Manuel Tembo, “Com a falta de água na região, o resultado da pesquisa, focada na alimentação sólida, indica nova forma de sobrevivência e adaptação ao futuro sem água, que persegue o continente africano”.
Fonte: Procedings of the National Academy of Sciences, ano 54, mês 10, página 43
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Desespero da Piedade
Anexo, um poema do Vinícius de Moraes, Desespero da Piedade.
Espero que vocês gostem.
Abraços.
Renato Dias
Desespero da Piedade
Vinicius de Moraes
Meu Senhor, tende piedade dos que andam de bonde
E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...
Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
Quando enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.
Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina.
Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte
E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.
Tende imensa piedade dos músicos dos cafés e casas de chá
Que são virtuoses da própria tristeza e solidão
Mas tende piedade também dos que buscam silêncio
E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.
Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.
Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
Que em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...
Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
Que se efeminam por profissão mas que são humildes nas suas carícias
Mas tende mais piedade ainda dos que cortam o cabelo:
Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!
Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
Que lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.
Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
Mas tende mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia
Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.
Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.
E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tende píedade das mulheres
Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!
Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta – que o homem não presta, não presta, meu Deus!
Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.
Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.
Tende piedade da mulher no instante do parto
Onde ela é como a água explodindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.
Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.
Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.
Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas
Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.
Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto de alegria e serenidade.
Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoção da vida nelas.
Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e de sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.
Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo.
Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados
E sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!
Boa vizinhança
A carência urbana está nos supermercados, o comentário de um produto, nas portarias dos prédios, e no metrô. A solidão no meio da multidão, quanto clichê, um pra cada habitante da metrópole. Todo mundo concorda que as pessoas urbanas são mais frias, até mesmo nós, urbanóides, então porque disso tudo? Três dilemas-chave:
1) Se fala de amor, mas não se pratica.
É o que toda pessoa crente no sagrado também repete, é o que todo poeta tenta sobrepujar. Olhando a grama do vizinho, isso acontece porque não sabemos como nem porque ela cresce tão verde assim, e ao invés de perguntarmos o como e por quê, só dizemos bom dia, boa tarde ou boa noite - ah, e nos domingo a tarde xingamos o time dele.
2) A loucura alheia, se entregar a ela ou não?
Todo mundo na cidade é louco, por isso é essa loucura certo? Mas você responde a essa loucura caindo na loucura alheia, ou age do seu próprio e insano modo? por exemplo: se alguém grita com vc no trânsito você vai:
a) ficar quieto;
b) fechar a pessoa, rir dela e depois acelerar, ou;
c) chamar a pessoa pra um sorvete e esfriar a cabeça.
No palco da boa vizinhança temos a guerra fria, com o duelo de malquistar o vizinho e a guerra das oportunidades de aporrinhar, principalmente com músicas aporrinhantes. Aì está o jogo de experimentar a loucura do próximo, subverter a loucura do próximo ou simplismente ignorá-la.
3) Corresponder a simpaticidade do vizinho ou seguir reto?
Você está com pressa, o vizinho não, e ele continua puxando assunto, você dá um passo, ele também (mas ele não estava indo na direção oposta?), hoje não tem jeito, seguir reto. E assim toda semana, até que a fuga um dia se inverte, e é ele quem foge. Vocês até sentem culpa por não se conversarem mais, podem até se perguntar se é essa a vizinhança que querem pros seus filhos crescerem. Mas no final você se aliviam, porque afinal a culpa é da cidade, 'abraço grátis' pro inferno, comece por um bom dia pra cada pessoa da sua rua, do seu caminho, do metrô.
Inspiração para um dos textos de amanhã
Maysa
Grupo distribui New York Times falso
O grupo ativista de "trotes progressistas" Yes Men, sobre o qual você já leu nesse blog, começou a distribuir ontem à noite e continuou ao longo do dia de hoje 1,5 milhão de cópias falsas do New York Times em Nova York e em Los Angeles. O jornal tem data de 4 de julho do ano que vem e traz a manchete "Acaba a Guerra do Iraque" e notícias como o Tesouro anunciando um plano de impostos sensato, o Ato Patriota sendo revogado e George W. Bush sendo julgado por cimes de guerra.
A circulação é quase a mesma do New York Times de verdade, e eles contaram com um exército de voluntários para distribuir os jornais, pessoal que pegou os pacotes ontem à noite e na manhã de hoje. A preparação toda foi feita por códigos, e os Yes Men criaram dois sites, um para a operação, BecauseWeWantIt, e outro com um time de advogados para liberar rapidamente o distribuidor que fosse preso pela polícia. Os jornais estão sendo entregues nesse momento nas entradas dos metrôs de Manhattan e em outros lugars. Às 12h locais, o pessoal dá uma coletiva explicando tudo.
terça-feira, 11 de novembro de 2008
evento
http://opelf.org/?page_id=38
E aqui vai o link para se increver, se bem que dá pra se increver na hora, falando com o pessoal que vai estar vendendo livros do lado de fora da casa.
http://opelf.org/?page_id=13
Haverá tambem atividades no fim de semana mas essas devem ser reservadas atraves de e-mail especifico. Quem puder, parece que vale a pena.
Abraços
Will.
"Relapsidão"
Queria pedir desculpas pela minha 'relapsidão' com seus posts, mas devo infroma-los que já comentei na maioria (incluindo os da Thais) e que a campanha "Comente e ganhe um amigo" continua em vigor. aproveitando o espaço eu vou postar o meu texto da ultima aula já que o da proxima ainda não está pronto. Alias, 'Fecer' você se incomoda se eu usar suas roupas suicidas no meu texto?
Eu e ela
E fico pensando em nós dois, dois, dois mil, dois milhões, dois, dois corpos entrelaçados em tuas ruas, dois amores fluentes entre suas veias de asfalto. Respiro, respiras? Como gostaria que o fizesses. Como gostaria que virasses carne, carne concreta como o teu concreto, carne branca como o teu cal e tinta, carne lisa, carne curva, carne litoral norte, salgada pelos banhos de mar, salgada e a respirar.
Que coisa mais louca desejar-te, que coisa mais louca proclamar-te minha, como eu teu rei por direito e berço, rei sem reino, sem súditos, só rei, rei e criador, criador de tua realidade, rei que vê em teus grafites, em tuas pixações, as sardas de teu rosto nu, de teu corpo amante, amado. Rei louco, desvairado, sonhador. Sonhador que sonha com teu toque, com teus lábios peregrinos, bandeirantes, cantores, cantantes.
Cidade, corpo, corpo, rosto, rosto, mulher. Deslizo por tuas curvas, apaixono-me em teus olhares, tuas cores de inverno, teu sorriso de verão, teus cabelos de sol poente, levemente enrolados, sorridentes, sorrio de volta e beijo teus ombros de esquinas delicadas, teu pescoço de fêmea fértil, sinto teu cheiro de bosques e parques, teu sabor de café e hortelã, de massa, de virado a paulista, de mel, doce, indistinto e delicioso, indescritível.
E pasmo eu pisco, receoso de quebrar teu encanto, mas vejo que também piscas, e como piscas, piscas dias, noites, tardes vadias, piscas vida e morte por trás de armações e lentes, piscas faróis e semáforos, guias e catálogos, piscas amostras de artes e teatros, e intelectual, piscas rindo de meus desejos.
E fico pensando nas nossas noites, noites frias, noites belas, estreladas, onde as estrelas fazem as vezes de suas janelas acesas, e em suas janelas as vidas, as vidas que passamos juntos e as noites abraçados. Vazios, passeamos juntos pelas ruas eu e você, vendo a cidade dormir, dormir, que coisa chata, pensamos igual, atravessamos a noite e recebemos a aurora, juntos, carne e concreto, carne e carne, concreto e carne.
És mulher que se quer cidade, que se quer viva, que se quer mais, agora pelo menos és. Tens trejeitos delicados, tens língua, dentes, lábios, lábios, lábios, e quem sabe uma marquinha de nascença escondida atrás do cotovelo... Amas-me?
Charles Baudelaire
tradução Guilherme de Almeida
Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.Eu bebia, como um basbaque extravagante,No tempestuoso céu do seu olhar distante,A doçura que encanta e o prazer que assassina.
Brilho... e a noite depois! - Fugitiva beldadeDe um olhar que me fez nascer segunda vez,Não mais te hei de rever senão na eternidade?
Longe daquí! tarde demais! nunca talvez!Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!
O Vampiro
Tu que, como uma punhalada,Entraste em meu coração triste;Tu que, forte como manadaDe demônios, louca surgiste,
Para no espírito humilhadoEncontrar o leito e o ascendente;- Infame a que eu estou atadoTal como o forçado à corrente,
Como ao baralho o jogador,Como à garrafa o borrachão,Como os vermes a podridão,- Maldita sejas, como for!
Implorei ao punhal velozQue me concedesse a alforria,Disse após ao veneno atrozQue me amparasse a covardia.
Ah! pobre! o veneno e o punhalisseram-me de ar zombeteiro:"Ninguém te livrará afinalDe teu maldito cativeiro.
Ah! imbecil - de teu retiroSe te livrássemos um dia,Teu beijo ressuscitariaO cadáver de teu vampiro!"
O Albatroz
Às vezes, por prazer, os homens de equipagemPegam um albatoz, enorme ave marinha,Que segue, companheiro indolente de viagem,O navio que sobre os abismos caminha.
Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado,Deixa doridamente as grandes e alvas asasComo remos cair e arrastar-se a seu lado.
Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!Ave tão bela, como está cômica e feia!Um o irrita chegando ao seu bico em cachimbo, Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!
O poeta é semelhante ao príncipe da alturaQue busca a tempestade e ri da flecha no ar;Exilado no chão, em meio à corja impura,A asa de gigante impedem-no de andar.
Uma carniça
Lembra-te, meu amor, do objeto que encontramos Numa bela manhã radiante: Na curva de um atalho, entre calhaus e ramos, Uma carniça repugnante.
As pernas para cima, qual mulher lasciva, A transpirar miasmas e humores, Eis que as abria desleixada e repulsiva, O ventre prenhe de livores.
Ardia o sol naquela pútrida torpeza, Como a cozê-la em rubra pira E para ao cêntuplo volver à Natureza Tudo o que ali ela reunira.
E o céu olhava do alto a esplêndida carcaça Como uma flor a se entreabrir. O fedor era tal que sobre a relva escassa Chegaste quase a sucumbir.
Zumbiam moscas sobre o ventre e, em alvoroço, Dali saíam negros bandos De larvas, a escorrer como um líquido grosso Por entre esses trapos nefandos.
E tudo isso ia e vinha, ao modo de uma vaga, Ou esguichava a borbulhar, Como se o corpo, a estremecer de forma vaga, Vivesse a se multiplicar.
E esse mundo emitia uma bulha esquisita, Como vento ou água corrente, Ou grãos que em rítmica cadência alguém agita E à joeira deita novamente.
As formas fluíam como um sonho além da vista, Um frouxo esboço em agonia, Sobre a tela esquecida, e que conclui o artista Apenas de memória um dia.
Por trás das rochas irrequieta, uma cadela Em nós fixava o olho zangado, Aguardando o momento de reaver àquela Náusea carniça o seu bocado.
- Pois hás de ser como essa infâmia apodrecida, Essa medonha corrupção, Estrela de meus olhos, sol de minha vida, Tu, meu anjo e minha paixão!
Sim! tal serás um dia, ó deusa da beleza, Após a benção derradeira, Quando, sob a erva e as florações da natureza, Tornares afinal à poeira.
Então, querida, dize à carne que se arruína, Ao verme que te beija o rosto, Que eu preservei a forma e a substância divina De meu amor já decomposto!
As Metamorfoses do Vampiro
Tradução de Ivan Junqueira.
E no entanto a mulher, com lábios de framboesa, Coleando qual serpente ao pé da lenha acesa, E o seio a comprimir sob o aço do espartilho, Dizia, a voz imersa em bálsamo e tomilho: - "A boca úmida eu tenho e trago em minha ciência De no fundo de um leito afogar a consciência. Sou como, a quem vê sem véus a imagem nua, As estrelas, o sol, o firmamento e a lua! Tão douta na volúpia eu sou, queridos sábios, Quando um homem sufoco à borda dos meus lábios, Ou quando o seio oferto ao dente que mordisca, Ingênua ou libertina, apática ou arisca, Que sobre tais coxins macios e envolventes Perder-se-iam por mim os anjos impotentes!"
Quando após me sugar dos ossos a medula, Para ela me voltei já lânguido e sem gula À procura de um beijo, uma outra eu vi então Em cujo ventre o pus se unia à podridão!
Os dois olhos fechei em trêmula agonia, E ao reabri-los depois, à plena luz do dia, A meu lado, em lugar do manequim altivo, No qual julguei ter visto a cor do sangue vivo, Pendiam do esqueleto uns farrapos poeirentos, Cujo grito lembrava a voz dos cata-ventos Ou de uma tabuleta à ponta de uma lança, Que nas noites de inverno ao vento se balança.
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
domingo, 9 de novembro de 2008
Literatura e Publicidade
Ah! Venham fregueses!
E venham depressa
Que aqui não se prega
Nem logro, nem peça.
Antes dele, uma das mensagens pioneiras a estimular a venda de produtos, já legitimando o caráter mercantil da publicidade, veio certamente da mão de um bardo popular, ainda que se desconheça a sua autoria:
Quem quiser coisinhas boas
Venha ao Largo do Rocio
Na causa do Albino Dutra
A melhor de todo o Rio.
Olavo Bilac foi um dos poetas mais requisitados pelos anunciantes em sua época. Não foi à toa que coube a ele, ufanista e defensor do serviço militar obrigatório, os versos anunciando a primeira fábrica nacional de velas, já que em fins do século passado o Brasil importava desde palitos de dente até alaúdes:
Pátria independente exulta
Temos a vela brasileira.
A Bilac também se atribui uma quadrinha famosa - e pela qual recebeu polpudo pagamento - , que promovia um produto em expansão nas primeiras dácadas do século XX, o fósforo, vendido exclusivamente em farmácias:
Aviso a quem é fumante
Tanto o Príncipe de Gales
Como o Dr. Campos Salles
Usam Fósforo Brilhante.
Nesse exemplo, já notamos qua a utilização de figuras públicas em peças publicitárias foi, desde outrora, um recurso extraído do universo literário. Explorou-se tanto a citação que, atualmente, há uma saturação de testemunhais com artistas de novela, modelos, jogadores de futebol, pseudopersonalidades, e eles continuam invadindo os mass media.
Extraído do livro Redação Publicitária, João Carrascoza
That's all
Maysa
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Imaginário urbano
A cidade oculta
Às vezes preferia ser mirmecófilo. Ou um ciclope, para não poder ver tudo. Não estar ciente do cílicio da cidade. Elas sim são organizadas, as formigas.
Começa a formigar o fronte e a cicatriz cimbra de acordo com o cimento, ciumento porque comecei dando a impressão de algo bucólico.
Por querer uma cidade virente, não cineriforme, onde chicoteiam chicórias.
Entre seus muitos predicados, destacam-se os prédios que cindem o céu cirrífero, que cerram minha vista para cinosura. A elite clipeiforme simula não ver nada. O que eles ciciam? essa oclofobia me incomoda, chique e o chiqueiro da elite.
A jusante do clivo ronceiro, para não ser presa da pressa, cinjo o cinema inundado pela chuva, ocupado por ciganos. O clima na clínica, que outrora outorga o incerto, um outono em um outdoor ,Outono no mês de outubro, um outono que mais parece inverno.
Naquele dia estava com pressa, o motivo não me lembro, talvez seja a chuva tudo ensolarava naquele instante. Talvez seja imbrífero, mas deveria algo de importante para ser feito. Nem sempre é ruim obedecer os relógios, nem sempre é cansativo estar atrasado e por vezes até é bom andar correndo.
É claro que se esta história tivesse só o objetivo de dizer que quase tudo deu certo, que não fui atropelado pelo atro e que consegui depois de tudo chegar onde devia, sem nenhum atraso, não haveria graça e nunca aprenderia que ás vezes ter pressa e bom. Já viu que no fim todos chegam independente da pressa, e a vida não é sempre o que vem depois .Quanta vida perdeu-se esperando pelo que vinha, a depois, por que você não vive agora
Na bifurcação vou contra o fluxo, ando sem destino.
Ao invés do hesterno, tinha algum lugar para ir, pareço sentir meu esterno, essa cinesalgia do externo. Prefiro o ínvio onde o envidraçado não vitrifica meu visual. Não quero ser vítima do vítreo. Paro na gangarina, os vitrais parecem me perseguir. Faço um roteiro, antes tinha visto: gangorras destruídas, a gangue do gancho. Os assaltantes crivaram a parede de balas, vândalos no vão. Não estou na Amazônia, mas minha amaxofobia, parece diminuir.
Sou vápido, que falta faz uma cachoeira em cada esquina açoiteira. Onde o aço açoda um açude iria acudir dos acúleos férreos.
Ednei Pereira Rodrigues
Plágio da Maysa?
Assalto no metrô
Bilheteria blindada
A bala diz que parou no aço
Acho que acochou
Dolores que pagava com dólares
Biguar no seu bíceps
Seria a bala xenófoba?
Não tome cheta comigo
Violência só gera violência
Não viu minha essência
Que sujeita de pá virada
Nem minha paz de alma
Nem as pás
Que inumam Dolores
Ednei Pereira Rodrigues
Antes da Janice
A poesia que me inspirou...
Manhã
QueroNos teus quartos forrados de luar
Onde nenhum dos meus gestos faz barulho
Voltar.
E sentar-me um instante
Na beira da janela contra os astros
E olhando para dentro contemplar-te,
Tu dormindo antes de jamais teres acordado,
Tu como um rio adormecido e doce
Seguindo a voz do vento e a voz do mar
Subindo as escadas que sobem pelo ar.
Sophia de Mello Breyner Andresen
A janela de Janice
Versão verborrágica
Pelo jalne que entrava pela janela, sua jaula, seu jazigo. Jaula porque? Não era ré, apenas gostava de ficar observando tudo, a testemunha ocular dos fatos, muitas jardas contemplava. Jazigo porque? Não estava morta, mas às vezes parecia, por causa do tédio que a envolvia.
Janice sabia que estava amanhecendo. Não obedecia mais aos relógios, ficava aos brados dizendo vários números diferentes, mas eles não se confundem. Sua janta era o desjejum, comeu o resto do javali que se encontrava no forno.
Mostrava jactância ao jacular seu esputo no janota jalofo. Sempre distraído com seu jaleco, talvez seja médico ou babalorixá, nem se importou com a sua baba que escorria, nem à viu lá em cima também, momentos de falta de juízo, nada justifica suas atitudes um tanto joguetes.
Sua casa era imponente, estrutura revestida de jaspes. Seu jardim de jasmins, chamava a atenção de todos que passavam. Como um jato, julgavam-na jumenta, mas Janice era culta, falava javanês, seu jargão era justo. Precisamos tratá-la com jeito.
Jovial, só tinha um defeito no joelho, claudicava às vezes em sua jornada limitada pela esquina. O jeito dos seus olhos me fascina, judia quando ofusca e não consigo analisa-la.
Versão Trágica
Depois do dilúvio, Janice só conseguia sair de casa pela janela, de jangada remava entre seu jardim de jasmins destruído. O trabalho do jardineiro tinha sido mesmo inútil, antes e pós tragédia. Antes porque o incompetente não sabia qual era a diferença entre uma erva-daninha de um jasmim, e também por causa da jamanta de seu ex- idílio. Um jagunço viciado na jogatina, quase entrou dentro de sua casa com o veículo. Jurou nunca mais amar ninguém.
Janice e seus amores amorfos, o jóquei que tinha lhe dado uma jóia de presente, caiu do cavalo, ficou paraplégico. O jornaleiro teve a jugular cortada em um assalto no asfalto onde deixou seu sangue que agora estava limpo. Sobreviveu apenas o Róscio rotundo, lembrou dele por vários motivos: quando passou pelo rossio, lembrou daquela rua e da rubéola que tinha, quando começou o rocio, será que vai chover mais ainda? talvez peça ajuda para ele. Mas por rócio, Janice era egoísta, iria vogar á deriva, até não agüentar mais. Estava rota em sua rota. Sem rumo o rumor era rústico.
Janice, já tinha pensado em suicídio antes da calamidade, ruía aos poucos por Rui o ruminante, mas quem diria que aquele dia não seria igual aos outros, estava tudo igual a décadas. O que mais cansa nessa vida e a rotina, o rótulo das coisas.
No entanto com o passar do tempo, estava ficando cada vez mais melancólica e a lembrança de momentos felizes, mesmo que eles fossem agora tristes por não poderem repetir-se, acabavam sendo preciosos instantes que comprovam a existência num mundo solitário que parecia não pertencer ao momento de ninguém. Pelo menos não ia acabar entre quatro paredes, sendo observada pela televisão. Estava livre!
Versão Surrealista
A luz que vinha de longe, não iluminava direito o papel. De propósito? Janice não queria ser personagem de um romance, pois eles são muito detalhistas.
A retina restringe a paisagem, teria que ser como Argos para te analisar. Empresta está sua complexidade? só até o próximo parágrafo. Reticente apenas sigo seu rastro, citígrado no resvalo.
Se olhado bem do alto a fraca luz parecia uma estrela, como se um espelho dividisse o céu, como se a calma que se imagina existir no espaço e toda sabedoria e conhecimento do infinito pudesse residir também naquele campo. O infinito só existe para limitar nossa capacidade de imaginação. Havia sempre um barulho de música por perto, quimeras não tocam mais pífaro. Quieta e não é quizila, ontem onomatopéica.
Tudo parecia estar no lugar, mas confundiu a janela com a porta, ao cair não se esborrachou no chão, aprendeu a voar como um jaçanã. Sua jornada sem limites, exílio desta metrópole, repatriação na Lua, como selenita. Passa por Júpiter, Saturno e em Marte fez estada. Rubrípede, depois de andar em sua superfície, Antares antálgica. Galga mais uma galáxia. Percebeu o supérfluo, o improfícuo flúor. Agora anodonte, muitos anos taciturna, sem manifestar o riso. Inútil aljôfar, antes de anoitecer anômala, volta para casa com a solidão prosélita, aperta o passo, tenta dispersa-la, sobre ela estás. Ela sempre chega antes, espera na sala.
Sentiu o que todos na verdade sentiam algumas vezes, aquela
quase certeza de ter entendido a razão das coisas. Percebeu o quase inevitável envelhecimento e a importância das pequenas razões da vida, notou o que era caminhar sozinha pelos outros. A vida não precisava de muitas coisas para ter sentido, mas não, ainda várias pessoas achavam o contrário e deixavam as vidas passarem sem as viverem.
Talvez amanhã eu entenda.
Ednei Pereira Rodrigues
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Diz Basil Hallward:
See you!
Maysa
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Acho q agora me empolguei!
Vou compartilhar um rascunho meu com vcs, tb produzido p/ a mesma aula sobre o processo da escrita e tb não lido por excesso de vergonha...
Digam o q acharam, ok?
Thaís
Minha escrita
Amar escrever.
Escrever amar.
Amar-se escrevendo.
Escrever amando.
Amo escrevendo.
Escrevo amado.
Amado escrito.
Odiado.
Amor.
(por: Thaís Matsumoto)
Eu tava querendo fazer isso há algum tempo, mas só agora pude.
Vou copiar aqui um texto mto bacana da Cecília Meireles q tem tudo a ver com aquela aula sobre o processo da escrita. Eu estava inclusive com ele em mãos na aula, mas ensaiei, ensaiei e não me encorajei a encarar aquele microfone.... Como aqui não tenho q me expor tanto (ao menos fisicamente), a coragem surgiu, assim de repente, não mais que de repente...
Abçs
Thaís
Motivo
(Cecília Meireles)
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está competa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
sábado, 1 de novembro de 2008
excertos de textos (aula 03):
às vezes… quando acordava
era porque tínhamos chegado
ficava a bordo encostado às amuradas
horas a fio
espiava a cidade as colinas inclinando-se
para a noite lodosa do rio
e o balouçar do barco enchia-me de melancolia
a noite trazia-me aragens com cheiro a corpos suados
cantares e danças em redor de fogos que eu não sabia
o ruído dos becos a luz fosca dum bar
se descesse a terra encontrar-te-ia… tinha certeza
para o vôo frenético do sexo
e num suspiro talvez alagássemos os umbrais da noite
mas ficava preso ao navio… hipnotizado
com o coração em desordem
os dedos explorando nervosos as ranhuras da madeira
os pregos ferrugentos as cordas
as luzes do cais revelavam-me corpos fugidios
penumbras donde se escapavam ditos obscenos
gemidos agudos sibilantes risos que despertavam em mim
a vontade sempre urgente de partir
27./ O homem ou é tonto ou é mulher – Gonçalo M. Tavares
É sempre de dia quando acordo
E é sempre de noite quando adormeço.
Já experimentei fazer surpresas.
Acordar de repente às 4 da madrugada.
Acordo e zás: tudo claro.
A mesma coisa quando adormeço de tarde. Fica logo noite.
Os meus amigos perguntam-me:
- Ontem dormiste a tua sesta?
- Dormi.
- Logo vimos – dizem eles – ontem escureceu em pleno dia.
É este um dos meus segredos.
A noite e o dia dependem de mim.
Quando acordo torno tudo claro.
Quando adormeço torno tudo escuro.
O meu corpo é um interruptor universal.
Mas esta é uma característica como outra qualquer.
Uns têm olhos azuis.
Outros têm o cabelo preto.
Eu desligo e ligo a luz do mundo.
Nada demais.
Se isso me traz algum problema?
Sim, é a resposta.
Vou dizer-vos um segredo. (aproxima-se)
Estou sendo observado.
Permanentemente.
24 horas por dia.
Um desassossego.
Coisa de malucos.
E logo eu que não faço mal a ninguém.
Alem disso (aproxima-se mais)
Alem disso querem obrigar-me a dormir a horas certas.
Isto, uns.
Porque outros querem ganhar dinheiro comigo.
Fazem apostas.
- Aposto que amanhã escurece às 4 da tarde.
Uma ninharia, ainda por cima.
Mas anda muito dinheiro em jogo.
E máfias. Há muitas máfias nesta história.
É que esta coisa do dia e da noite ainda tem alguma
importância, apesar de tudo.
poemas em prosa:
Pequenos poemas em prosa – Charles Baudelaire
XVII – UM HEMISFÉRIO NUMA CABELEIRA
Me deixe respirar, por longo, longo tempo, o cheiro dos seus cabelos, neles mergulhar todo o meu rosto, como um homem sedento na água de uma fonte, e agitá-los com minha mão como a um lenço cheiroso, para sacudir lembranças no ar.
Se você pudesse saber tudo o que vejo! Tudo o que sinto! Tudo o que ouço em seus cabelos! Minha alma viaja por sobre o perfume como a alma dos outros homens por sobre a música.
Seus cabelos contêm todo um sonho, repleto de velas e mastros; contêm grandes mares cujas monções me levam a encantadoras regiões, onde o espaço é mais azul e mais profundo, onde a atmosfera é perfumada pelas frutas, pelas folhas, e pela pele humana.
No oceano de sua cabeleira, entrevejo um porto fervilhando de cantos melancólicos, homens vigorosos de todas as nações e navios de todas as formas recortando suas arquiteturas finas e complicadas num céu imenso onde se estira o eterno calor.
Nas carícias de sua cabeleira, reencontro os langores das longas horas passadas num sofá, no quarto de um belo navio, embaladas pela arfagem imperceptível do porto, entre os vasos de flores e as moringas refrescantes.
Na ardente lareira de sua cabeleira, respiro o cheiro do fumo mesclado de ópio e açúcar; na noite de sua cabeleira, vejo refulgir o infinito do céu tropical; nas margens de penugem da sua cabeleira, me embriago com os cheiros combinados do alcatrão, do almíscar e do óleo de coco.
Me deixo morder, por longo tempo, suas tranças pesadas e negras. Quando mordisco seus cabelos elásticos e rebeldes, me parece estar comendo lembranças.
prosa poética:
Os passos em volta – Herberto Helder
TEORIA DAS CORES
Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.
O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor – sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.
Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.
História de cronópios e de famas – Júlio Cortázar
PREÂMBULO ÀS INSTRUÇÕES PARA DAR CORDA NO RELÓGIO
Pense nisso: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra-pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você – eles não sabem, o terrível é que não sabem – dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrines das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que ele possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros, relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.
INSTRUÇÕES PARA DAR CORDA NO RELÓGIO
Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, pegue com dois dedos o pino da corda, puxe-o suavemente. Agora se abre outro prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.
Que mais quer, que mais quer? Amarre-o depressa a seu pulso, deixe-o bater em liberdade, imite-o anelante. O medo enferruja as âncoras, cada coisa que pôde ser alcançada e foi esquecida começa a correr as veias do relógio, grangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis. E lá no fundo está a morte se não corremos, e chegamos antes e compreendemos que já não tem importância.
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Cinema brasileiro por R$2,00
“Meu Nome Não é Johnny”, de Mauro Lima; “Ensaio Sobre a Cegueira”, de Fernando Meirelles; “Última Parada 174”, de Bruno Barreto; “Linha de Passe”, de Walter Salles e Daniela Thomas; e “Era Uma Vez...”, de Breno Silveira, são alguns dos títulos participantes desta edição.
(Fonte: Assessoria de Imprensa - Cinemark)
Vamos!
Maysa
NEON (microconto)
Na cama desfeita, acendeu um cigarro. E chorou.
Renato Dias
terça-feira, 28 de outubro de 2008
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Poema apresentado em sala
Achei por bem publicar o poema que li na sala para melhor apreciação do mesmo, constando no final um link para sua versão original (em ingles) e outro link com uma pequena biografia (wikpédia para agradar a professora) do autor que não soube citar na hora.
Invictus
Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu - eterno e espesso,
A qualquer deus - se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.
Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei - e ainda trago
Minha cabeça - embora em sangue - ereta.
Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.
Por ser estreita a senda - eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.
Autor: William E Henley
Tradutor: André C S Masini
original: http://www.casadacultura.org/Literatura/Poesia/g97_ingles/invictus_william_henley.html
Biografia:http://pt.wikisource.org/wiki/Autor:William_E._Henley
Abraços a todos
Will.
P.S. começei uma campanha "Quem é amigo comenta" com o intuito de incentivar os comentários aos textos de nossos colegas. Comente e seja um amigo você também.
REFLEXÃO !!!
Não saber o que fazer,
Não saber como agir,
Simplesmente sentir
Deixar que as palavras tomem conta do seu interior
Saborear o elixir da literatura
Fechar os olhos e viajar
No mar
Na imensidão
De permanecer na exatidão
Criando em mim uma tensão sem noção
Em um poema de especial atenção
A linguagem tem a sua própria canção
Que deixa no coração
Dos apaixonados a sensação
De não ter fim.
Autor: Amanda Maia
"Cadáver Esquisito"
No exato, implícito, sentido
Ocorre logo rápido cara metade, né!
...?
Meu amor foi embora
Simplesmente Eu
Por ser verde cor de abóbora
O rato mata o tato
Eu prefiro as borboletas
Luar lugubre
Danço sobre as linhas do meu salão
A verdade está lá fora
TIC-TAC, TIC-TAC, concebeu
E devagar suspirou
Solidão imaginária
Amor incenava paranóico
Caminhar e escrever sob a chuva.
Autor: A Turma da Sala Zero
excertos de textos (aula 02):
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
“Catar Feijão” - João Cabral de Melo Neto
Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebra dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com risco.
“Razão de ser” - Paulo Leminsky
Escrevo.
E pronto.
Escrevo porque preciso,
Preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
POESIA E POEMA – Octavio Paz, O arco e a lira
A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos eleitos; alimento maldito. Isola; une. Convite à viagem; regresso à terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Súplica ao vazio, diálogo com a ausência, é alimentada pelo tédio, pela angústia e pelo desespero. Oração, litania, epifania, presença. Exorcismo, conjuro, magia. Sublimação, compensação, condensação do inconsciente. Expressão histórica de raças, nações, classes. Nega a história: em seu seio resolvem-se todos os conflitos objetivos e o homem adquire, afinal, a consciência de ser algo mais que passagem. Experiência, sentimento, emoção, intuição, pensamento não-dirigido. Filha do acaso; fruto do cálculo. Arte de falar em forma superior; linguagem primitiva. Obediência às regras; criação de outras. Imitação dos antigos, cópia do real, cópia de uma cópia da Idéia. Loucura, êxtase, logos. Regresso à infância, coito, nostalgia do paraíso, do inferno, do limbo. Jogo, trabalho, atividade ascética. Confissão. Experiência inata. Visão, música, símbolo. Analogia: o poema é um caracol onde ressoa a música do mundo, e métricas e rimas são apenas correspondências, ecos, da harmonia universal. Ensinamento, moral, exemplo, revelação, dança, diálogo, monólogo. Voz do povo, língua dos escolhidos, palavra do solitário. Pura e impura, sagrada e maldita, popular e minoritária, coletiva e pessoal, nua e vestida, falada, pintada, escrita, ostenta todas as faces, embora exista quem afirme que não tem nenhuma: o poema é uma máscara que oculta o vazio, bela prova de supérflua grandeza de toda obra humana!
Sobre a origem da poesia - Arnaldo Antunes
"12 Poemas para dançarmos" (12 poems to be danced: 2000)
A origem da poesia se confunde com a origem da própria linguagem. Talvez fizesse mais sentido perguntar quando a linguagem verbal deixou de ser poesia. Ou: qual a origem do discurso não-poético, já que, restituindo laços mais íntimos entre os signos e as coisas por eles designadas, a poesia aponta para um uso muito primário da linguagem, que parece anterior ao perfil de sua ocorrência nas conversas, nos jornais, nas aulas, conferências, discussões, discursos, ensaios ou telefonemas. Como se ela restituísse, através de um uso específico da língua, a integridade entre nome e coisa — que o tempo e as culturas do homem civilizado trataram de separar no decorrer da história.A manifestação do que chamamos de poesia hoje nos sugere mínimos flashbacks de uma possível infância da linguagem, antes que a representação rompesse seu cordão umbilical, gerando essas duas metades — significante e significado. Houve esse tempo? Quando não havia poesia porque a poesia estava em tudo o que se dizia? Quando o nome da coisa era algo que fazia parte dela, assim como sua cor, seu tamanho, seu peso? Quando os laços entre os sentidos ainda não se haviam desfeito, então música, poesia, pensamento, dança, imagem, cheiro, sabor, consistência se conjugavam em experiências integrais, associadas a utilidades práticas, mágicas, curativas, religiosas, sexuais, guerreiras? Pode ser que essas suposições tenham algo de utópico, projetado sobre um passado pré-babélico, tribal, primitivo. Ao mesmo tempo, cada novo poema do futuro que o presente alcança cria, com sua ocorrência, um pouco desse passado. Lembro-me de ter lido, certa vez, um comentário de Décio Pignatari, em que ele chamava a atenção para o fato de, tanto em chinês como em tupi, não existir o verbo ser, enquanto verbo de ligação. Assim, o ser das coisas ditas se manifestaria nelas próprias (substantivos), não numa partícula verbal externa a elas, o que faria delas línguas poéticas por natureza, mais propensas à composição analógica. Mais perto do senso comum, podemos atentar para como colocam os índios americanos falando, na maioria dos filmes de cowboy — Eles dizem "maçã vermelha", "água boa", "cavalo veloz"; em vez de "a maçã é vermelha", "essa água é boa", "aquele cavalo é veloz". Essa forma mais sintética, telegráfica, aproxima os nomes da própria existência — como se a fala não estivesse se referindo àquelas coisas, e sim apresentando-as (ao mesmo tempo em que se apresenta). No seu estado de língua, no dicionário, as palavras intermediam nossa relação com as coisas, impedindo nosso contato direto com elas. A linguagem poética inverte essa relação pois vindo a se tornar, ela em si, coisa, oferece uma via de acesso sensível mais direto entre nós e o mundo. Segundo Mikhail Bakhtin, (em "Marxismo e Filosofia da Linguagem") "o estudo das línguas dos povos primitivos e a paleontologia contemporânea das significações levam-nos a uma conclusão acerca da chamada 'complexidade' do pensamento primitivo. O homem pré-histórico usava uma mesma e única palavra para designar manifestações muito diversas, que, do nosso ponto de vista, não apresentam nenhum elo entre si. Além disso, uma mesma e única palavra podia designar conceitos diametralmente opostos: o alto e o baixo, a terra e o céu, o bem e o mal, etc". Tais usos são inteiramente estranhos à linguagem referencial, mas bastante comuns à poesia, que elabora seus paradoxos, duplos sentidos, analogias e ambiguidades para gerar novas significações nos signos de sempre. Já perdemos a inocência de uma linguagem plena assim. As palavras se desapegaram das coisas, assim como os olhos se desapegaram dos ouvidos, ou como a criação se desapegou da vida. Mas temos esses pequenos oásis — os poemas — contaminando o deserto da referencialidade.
Incluído no libreto do espetáculo “12 Poemas para dançarmos”, dirigido por Gisela Moreau, São Paulo
domingo, 26 de outubro de 2008
Vamos comprar os caderninhos!
Drummond dá uma forcinha. A citação abaixo é de uma de suas crônicas publicadas no Jornal do Brasil:
"Você que me lê, preste atenção. Não deixe passar nenhuma palavra ou locução atual, pelo seu ouvido, sem registrá-la. Amanhã, pode precisar dela."
(Entre palavras)
See you
Maysa
Proposta sobre algo que chamou a atenção
Batem na porta
calor contido
O farol se fecha
parece vaidade
Olhares lacrados
(Felipe Celline, o cabeludo mancebo do grupo, haha)
sábado, 25 de outubro de 2008
Chuva inspiradora
Cadê o cadáver esquisito?
Impermeável
Deixa a chuva molhar
E tudo devaneio mesmo
Quando tudo e chuva
Lava quando eu sangro
A flor se fecha
Antes de comê-la
Esconde seu nome
Revela um segredo de uma abelha
Onde estará está felicidade revessa?
Quando eu danço um tango
Com a solidão sem tanga
Da mágoa brota pus
Mazela que se abre
Como um sabre afiado
Abre passagem
Corta uma mecha
Do seu cabelo
Quase desfeito pelo vento
Apaga a vela
Abre uma brecha
Em meu joelho
Singelo elo
Compõe um ambiante aconchegante
Um quarto de quartzo
À parte para amar-te
(Ednei)
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
O convite
A paz comovida
A ausência de vida:
a ida
A subida
A curva
A descida
turva:
a queda
A linha
(reta)
na folha
cor de leite
O caminho
O convite
A seta:
deleite.
(Renato Dias)
terça-feira, 21 de outubro de 2008
[Proposta] texto causado pelo poema de Ana C.
risco
nada mais tenho
Num bilhete descubro:
Está a minha espera, não sei porque
Risco
nada mais temo
tudo mais tenso
pisco
Vida branca, palavra manca
[por hi-fi]
domingo, 19 de outubro de 2008
Cavalos e cachimbos...

Agora vamos usar como fonte de criação, inspiração e destruição uma das marcas de nossos tempos: Nike. A "obra virtual" Ceci n'est pas un nike (fez parte da Bienal de 2002), da artista Giselle Beiguelman nos convida a interagir com os conceitos de imagem e de representação. Bem legal! Entre no site: www.desvirtual.com/nike.
+ Magritte: ele é o "dono" do cachimbo (www.magritte.be)
Até mais!
Maysa
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
excertos de textos (aula 01):
1) Ana Cristina César (inéditos e dispersos)
Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma vida branca
e limpa à minha espera:
2) Fernando Bonassi – 100 histórias colhidas nas ruas
O que você fala para mim, você pode falar para o papel. O que você de você, você pode falar pro papel. O que você fala pra você, você pode falar pro papel. O que você fala das coisas em movimento e do movimento das coisas, isso também você pode falar pro papel. O que você não fala mas que fala através de você como um susto, você pode falar pro papel. Essa é a única diferença, se é que é uma diferença.

